Vale a pena me tornar sócio de uma empresa?

Vale a pena me tornar sócio de uma empresa?

Se chegou até aqui deve estar passando por um grande dilema de carreira: Tornar-se sócio de um negócio. É uma decisão difícil em que se deve pôr muita coisa na balança e neste post irei ajudá-lo com recomendações para evitar os erros mais básicos, alguns deles já cometi no passado e espero que você não passe por isso.

O que é uma empresa?

Uma empresa nada mais é que um “emprego diferente”, como empresário você decide deixar de ter um chefe para ter vários, que são os clientes. Você também assume responsabilidade sobre a vida de outras pessoas, que são seus funcionários a quem você deve salários e os fornecedores, a quem você deve pagamentos.

Não tem muito mistério, acredite. A parte financeira é pura matemática: ganhar mais do que gasta, manter os custos controlados e principalmente não se empolgar com os lucros. Já o marketing é um pouco complexo, você deve ter certeza que um número significativo de pessoas quer comprar seus produtos/serviços, avaliar a forma como atenderá seu público e tudo mais que envolve o processo desde a fabricação até a entrega e, em algumas vezes, o pós-entrega também. É preciso conhecer bem seu público-alvo para antecipar suas expectativas.

No aspecto “concorrência”, é preciso buscar informações sobre o mercado, preços praticados, modus operandi etc, de forma que você descubra se realmente tem condições de competir. Ex: Montar uma nova rede de TV é muito mais difícil que montar uma lojinha de video-games.

Deste modo, podemos dizer que uma empresa opera pela “relação” entre os mercados comprador, fornecedor e concorrente.

A sociedade comercial

Uma sociedade comercial é a divisão dos direitos de lucros entre pessoas físicas. É constituída através de um documento chamado Contrato Social, que é registrado na Junta Comercial. A história é sempre a mesma: duas ou mais pessoas juntam algum capital (dinheiro) e formam uma parceria, dividindo seus percentuais conforme são capazes de contribuir com o negócio, com dinheiro ou trabalho.

Aos sócios que possuem a maioria das ações de uma empresa (percentuais dela) damos o nome de Sócios Majoritários e eles geralmente são os manda-chuvas da empresa. Não existem regras para determinar como uma empresa deve ser constituída, este, aliás, é um assunto extremamente complexo. Um sócio pode possuir 99% das ações enquanto o outro pode possuir apenas 1%, uma empresa pode ser “sócia” de outra, um sócio pode possuir ou não direito de voto nas decisões da empresa e toda essa sistemática deve ser definida pelos próprios sócios.

Alguns exemplos de regras a serem definidas:

  • Planejamento Estratégico – missão, visão, valores e objetivos estratégicos
  • Responsabilidades – definindo departamentos, responsáveis etc
  • Estratégia de Marketing – segmentação, público-alvo, linha de produtos e investimentos em propaganda
  • Público-alvo a ser atendidos
  • Linha de produtos a trabalhar
  • etc

Uma sociedade, no entanto, é como um casamento, exige renúncias. Os desejos de um não devem prevalecer sobre os do outro, de modo que a relação permaneça equalitária. A não ser, é claro, que seu sócio majoritário seja um excelente gestor, nesse caso, é melhor deixar que ele tome conta do negócio e você faça apenas a sua parte.

Se um sócio divergir do outro, é importante lembrar, não há a quem recorrer. Devem conversar entre eles até chegarem a um consenso ou então, simplesmente, o sócio descontente deve deixar a sociedade. Se isso acontecer, ocorre um distrato, que é a alteração do contrato social retirando o sócio que deseja sair.

As regras do distrato, embora não estejam escritas na lei, seguem uma lógica. Em geral, o sócio que sai solicita uma avaliação da empresa para receber do outro sua “parte”. Essa parte é composta de lucros realizados e comprometidos, pró-labores pendentes e uma avaliação (subjetiva) do valor das cotas, que inclui os ativos da empresa e seu potencial de lucros futuros. O outro sócio, no entanto, pode fazer a proposta que quiser ou simplesmente não ter interesse em comprar a outra parte e aqui mora o primeiro perigo.

Avaliando um negócio

Avaliar se um negócio é bom ou ruim é tão fácil quanto avaliar a vida financeira de alguém. Olhe a média de receitas e de despesas e veja se há equilíbrio nos últimos meses e nos futuros. Para avaliar as receitas futuras basta analisar os contratos que a empresa têm e seus respectivos valores de pagamento combinados. Se for uma empresa de varejo, aquelas que dependem de clientes avulsos, você terá apenas a média de faturamento como ferramenta.

Se a empresa gastar mais do que ganha, tente entender o momento que ela está vivendo. Afinal, se tudo estivesse perfeito talvez não precisassem de um novo sócio. A empresa pode estar precisando de investimentos em produção (uma nova máquina, mais funcionários, matéria-prima), em marketing (os concorrentes possuem propaganda no horário nobre e a empresa não pode arcar) ou pode estar endividada (fez uma previsão errada de faturamento e gastou mais do que deveria ou seu giro, que é o tempo entre a compra e a venda de uma mercadoria, pode estar lento demais). Se suas habilidades ou seu dinheiro puderem contribuir com a melhoria do negócio talvez valha a pena entrar.

É preciso observar também o patrimônio da empresa (Ativo e Passivo). Ativo é a soma de valores em caixa, bancos, investimentos, as receitas comprometidas em contrato e os bens que ela possui. Já o Passivo é composto pelas dívidas que a empresa possui em curto, médio e longo prazo, que podem ter sido adquiridos em compras parceladas ou ainda, com a folha de pagamento de funcionários. Tendo esses dados em mãos, observe a relação entre bens e dívidas, ela deve te dar alguma percepção do negócio.

Devo dizer que essa avaliação deve ser feita caso a caso, pois há negócios que se endividam por anos para obter, lentamente, o retorno do investimento. Assim como há negócios que atuam com baixa margem de lucro (o que sobra entre receitas, despesas e impostos). Por isso é importante que você conheça o mercado antes de iniciar as negociações.

O melhor caso é quando a empresa possui um Ativo bem grande e um Passivo bem pequeno, significa que está operando tranquilamente. O Ativo, no entanto, idealmente não deve estar “imobilizado” (travado em bens físicos ou investimentos de longo prazo), pois se estiver, não haverá de onde tirar dinheiro se a empresa precisar.

Veracidade dos dados

Para avaliar a veracidade dos dados, minha sugestão é que use os impostos. Ninguém mente para a Receita Federal sem passar apertos.

  • Para início de conversa, peça as Certidões Negativas. Elas irão mostrar se a empresa tem dívidas com o Governo.
  • Descubra também se a empresa possui processos na Justiça e tome conhecimento individual de cada um deles.
  • Para saber se o faturamento é verdadeiro, peça os comprovantes de pagamento dos impostos da empresa e cruze os dados: Imposto de Renda, CSLL, ISS, PIS, COFINS. Todos têm alíquotas conhecidas e se a empresa pagou os impostos corretamente, você saberá quanto ela faturou.
  • Quanto às despesas, a mais fácil de avaliar é a Folha de Pagamento. Novamente, peça os comprovantes de pagamento dos impostos: o FGTS é o mais fácil de entender, pois é calculado com base nos salários. Mas você também pode usar o Imposto de Renda, sobretudo aquele que é retido na fonte, facílimo de achar “gatos”.
  • No caso de compras de materiais e equipamentos, você precisará das notas fiscais dos fornecedores e seus respectivos comprovantes de pagamento.
  • Busque também informações sobre o pró-labore dos sócios, antecipações e divisões de lucros. Elas falarão muito sobre como o dinheiro está sendo dividido no final dos ciclos mensais e anuais.

Em todo caso, é melhor contratar um Contador para lhe ajudar a entender esse monte de coisas. Por mais caro que seja o serviço, certamente será mais barato que aplicar seu dinheiro, ficar infeliz e precisar processar seu sócio depois.

Erros comuns

De todos, o maior erro é simplesmente acreditar no discurso bonito de alguém e entregar a ele seu dinheiro. Mas você também pode errar aplicando seu trabalho, com ou sem remuneração, num negócio que não tem chances de prosperar.

Não acompanhar, detalhadamente, o uso do dinheiro da empresa (Faturamento, Despesas, Impostos e Lucro) também é um erro. Afinal, com a entrada do seu capital muita coisa pode mudar e seu sócio pode, perfeitamente, te “engalobar” se você não acompanhar mensalmente esses comprovantes.

Tentar entrar num negócio que não conhece direito é o terceiro erro. Isso irá te deixar nas mãos de “sócios especialistas”, que por vezes terão interesses conflitantes com os seus. Sem poder analisar ou dar alguma opinião é melhor não entrar.

Confiar na “empresa de um cliente só”. Uma empresa que sobrevive de um contrato não difere de um um emprego, você estará aplicando todos seus “ovos de ouro” em apenas uma cesta e qualquer turbulência irá falir seu negócio. Mesmo o cliente mais sólido pode ter dificuldades, desinteresse em honrar seu contrato, pode te multar ou pode trocar de fornecedor.

Considerações Finais

Fique de olho nos golpistas, eles existem! Há pessoas que irão te oferecer rendimentos fantásticos pedindo que você trabalhe sem remuneração. Há também aqueles que te oferecerão salários “mínimos” e lucros maravilhosos, que talvez nunca venham a existir. Outros compõem valores de salários + comissão por metas + lucros, tudo para te encher os olhos.

Os verdadeiros golpistas são muito pacientes. Eles vão te persuadir hoje para colher daqui a muitos meses, de modo que você não duvide da sua boa fé. Há ainda aqueles, mais dissimulados, que se sentem ofendidos quando você pede documentações, não caia nessa!

Se você tem o sonho de empreender, busque oportunidades verdadeiras. Elas demoram para aparecer e talvez nunca apareçam para você, mas tenha certeza que sua reserva financeira será muito melhor aplicada por você que por outra pessoa. Com dinheiro, você tem o que há de mais importante na vida: Escolhas!

Por isso, seja sempre criterioso na hora de entrar num negócio, lembre das dicas que dei aqui e não se esqueça de contratar um contador experiente, ainda que o potencial sócio seja seu grande amigo de infância.

Num post futuro analisarei se “Vale a pena montar um negócio”, até lá!

Eli Rodrigues

Publicado por: Eli Rodrigues

There are 10 comments for this article
  1. didicano at 14:26

    Sucinto, com coerência e coesão. Resumo bem elaborado de forma que podemos ter a noção das necessidades de se construir uma sociedade.

  2. adrieli bertelli at 07:40

    Era exatamente o que eu estava procurando…. òtimo post!

    • Eli Rodrigues, PMP, CSM Author at 19:26

      Olá Adrieli,
      Fico feliz que tenha lhe servido de ajuda. Volta e meia aparecem oportunidades que não valem muito a pena, é preciso ter critérios claros para decidir o que fazer.
      grande abraço,
      Eli Rodrigues

  3. Fernanda C. Barbosa at 07:32

    Bom dia, gostaria de esclarecer uma dúvida.
    A partir do momento em que é pago o valor equivalente à “fatia” da empresa, o contrato social já deve ser alterado?
    Pois estão me oferecendo 20% de uma empresa e que, em 8 meses, eu “recupero” meu dinheiro investido e só então, o contrato será alterado. Neste período entro com meu dinheiro e mão de obra.
    Na minha leiga opinião, isso está errado, não é?!

    • Eli Rodrigues, PMP, CSM Author at 17:11

      Fernanda, se você não se sente confortável, não faça o negócio, pode ser sim um indício de enganação. No entanto, existe sim este tipo de contrato, é o contrato de opção de compra. Você investe um dinheiro como se fosse um empréstimo, fixando o valor da cota (Ex: 20% por 200.000 reais), daqui a 1 ano, independente do valor que a empresa gerar, você terá o direito de comprar as ações pelo valor combinado (mesmo que os 20% agora valham 2 milhões).
      Recomendo que consulte um advogado civil para esclarecer em mais detalhes.

      Espero ter ajudado

      Eli

  4. Johannes at 21:33

    Olá, estou pensando em me tornar sócio de uma empresa estrangeira que abrirá uma filial no Brasil, contudo, gostaria de saber como descobrir se este é um bom negócio, se o dono da empresa tem o nome limpo, etc. Para reduzir os riscos de cair em furada. obrigado!

    • Eli Rodrigues, PMP, CSM Author at 17:47

      Johannes, pus alguns critérios para avaliação no artigo, mas realmente não sei como você pode verificar a situação de crédito de outro país. Vale a pena procurar uma consultoria especializada.

  5. Thamyres at 17:03

    Gostaria de um E-mail para poder entrar em contato. Tenho algumas dúvidas!
    O post bem resumido sim! Só que estou com uma pequena dúvida. Como faço para entar em contato?

  6. Flávia Silva at 12:46

    olá, achei as dicas ótimas.
    fui convidada a ser sócia de um pequeno negócio, no momento não tenho capital, mas tenho visão de aumentar o local e estrategias boas, to pensando em pegar um emprestimos pequeno para dar uma melhorada no local. a pessoa que me fez o convite é de confiança.
    que dica vc me da?
    obg