Porque o Gerenciamento de Projetos não se resume ao MS-Project

Não raro tenho ouvido essa falácia: “Para gerenciar projetos basta o MS-Project”.

A Gestão de Projetos é, acima de tudo, comunicação e gestão de expectativas, embora seja muito útil, o MS-Project é apenas uma ferramenta. Para dizer que estou “gerenciando um projeto” preciso aplicar técnicas e ferramentas, algumas delas não muito palpáveis, como as do Gerenciamento de Recursos Humanos. O fato é que precisamos observar o (a aplicabilidade do) gerenciamento do projeto nas 9 áreas de conhecimento: Escopo, Qualidade, Aquisições, Riscos, Recursos Humanos, Comunicação e Integração.

Será que o MS-Project “dá conta” de mapear todas essas áreas? Resolvi atender ao desafio (bem-humorado) de um cliente e identificar o que é possível gerenciar no MS-Project.

Para isso usei uma escala de 0-20-80-100%, sendo:

  •  0% –  “Absolutamente Nada”
  • 20% – Mapeamento de uma “Pequena Quantidade de Informações”
  • 80% – Mapeiamento “Bastante Relevante”
  • 100%, “Mapeia Completamente” as práticas do PMBOK

Abaixo minhas percepções, não tem cunho científico, não analisei os processos detalhadamente, é apenas uma visão superficial para futuras análises.

INTEGRAÇÃO (0%)

Não dá suporte a construção do Plano de Gerenciamento, nem agregação das linhas de bases dos demais planos. Também não oferece suporte adequado à realização do Controle Integrado de Mudanças.

ESCOPO (20%)

É possível representar a EAP, não como uma representação gráfica, mas como “seções” do cronograma. Também é possível utilzar o campo “Anotações” como dicionário da EAP. No entanto, para afirmar que é feito o “Gerenciamento do Escopo” precisaria ainda: Definir o Plano de Gerenciamento de Escopo, adicionar documento de requisitos, matriz de rastreabilidade, declaração de escopo, fazer verificação e controle do escopo, isso não dá.

TEMPO (80%)

É possível mapear quase tudo: lista de atividades, atributos, recursos, durações, diagrama de redes, gráfico de barras (Gantt), passar  linha de base e controlar cronograma. Só não existem campos específicos para descrever o Plano de Gerenciamento de Tempo, nem as técnicas de estimativa utilizadas, valores estimados ou base de estimativas (memória de cálculo).

CUSTOS (80)%

Embora não seja confortável, é possível elaboração do orçamento, fazer acompanhamento e a análise de valor agregado dentro do MS-Project. Também não dá suporte a parte de estimativas e nem ao Plano de Gerenciamento de Custos.

QUALIDADE (0%)

Não dá suporte a construção do Plano de Qualidade, determinação de experimentos, testes e inspeções. Não existe campo adequado para analisar o custo da qualidade nem determinar garantia e controle, a não pelo artifício de descrevê-los como atividades do cronograma.

AQUISIÇÕES (0%)

Na área de Aquisições o suporte é sofrível, não há como fazer Declaração de Trabalho, documentos de seleção de fornecedores, contratos, relatórios etc.

RISCOS (0%)

O MS-Project não tem como auxiliar na Identificação, análise qualitativa e quantitativa de riscos, controle ou reavaliação. A não ser que, com “muita vontade de provar o contrário”, você crie um .mpp e construa uma tabela com campos personalizados para implementar o registro de riscos. Por que não usar o Excel?

RECURSOS HUMANOS (20%)

O MS-Project lista os Recursos Humanos (e materiais) e auxilia no gerenciamento de sua Alocação, mas além disso seria necessário gerar o Plano de Gerenciamento de RH e Acompanhar o Desenvolvimento da equipe (necessidade de treinamentos, conflitos, formação de equipe, negociação etc). O máximo que a ferramenta consegue mapear sãoa datas de ocorrência de algumas reuniões.

COMUNICAÇÃO (0%)

Por Comunicação no PMBOK entenda-se: todo o processo desde a Identificação das Partes Interessadas (Stakeholders), definição da estratégia de gerenciamento, coleta, organização, distribuição, armazenamento e descarte de informações do projeto. O MS-Project nesse caso poderia ajudar apenas a mapear as datas de reunião.

Recapitulando…

  • 0%   – Integração
  • 20% – Escopo
  • 80% – Tempo
  • 80% – Custo
  • 0%   – Qualidade
  • 0%   – Aquisições
  • 0%   – Riscos
  • 20% – Recursos Humanos
  • 0%   – Comunicação

Se consideramos peso igual para todas as áreas, somando 900%, o levantamento acima afirmaria que o MS-Project consegue seguramente atender a 200%. Traduzindo para a base 100, daria 22% de atendimento (200*100/900). Nada mal para uma ferramenta única, não é? E nem levamos em consideração o Project Server, que certamente aumentaria o percentual.

O fato é que não há subsídios para afirmar que o Gerenciamento de Projetos se resume ao MS-Project. Será que consegui convencê-los? rs

Publicado por: Eli Rodrigues

There are 9 comments for this article
  1. Paulo Alves Jr. at 07:50

    Olá, Eli.
    Gostei da sua análise, mas discordo de alguns pontos:
    – Os planos de gerenciamento de escopo, tempo e custos não são desenvolvidos dentro de suas próprias áreas, mas sim no processo 4.2 da área de Integração. Assim sendo, eu elevaria para 100% nas áreas de tempo e custos.
    – Sobre Comunicação, 0% não condiz com a realidade, haja vista que o Project permite a anexação de documentos podendo servir como organizados para os artefatos do projeto, além de ser um manancial de informações para relatórios. Na minha opinião, o Project me ajuda a responder duas perguntas que meus “clientes” sempre me fazem: quanto e quando? Sendo assim 0% não é o percentual correto para Comunicações na minha opinião.

    De qualquer forma, gostei da provocação e acho, inclusive, que isso pode ser tema de um artigo mais profundo, tanto sobre o Project, o EPM ou qualquer ferramenta de Gerenciamento de Projetos.
    Parabéns!

    Forte abraço!

  2. Alex Paiva, PMP, PMI-SP, MCTS at 23:27

    Eli,
    Tb tenho algumas divergências, mas o MS Project é apenas uma ferramenta e, como costumo dizer, conhece pouco sobre stakeholders e como comunicar corretamente. É apenas uma ferramenta. Como diria Vargas, Gestão do tempo é como termômetro: indica se o paciente está doente ou não. As causas da doença fatalmente estão em uma má gestão de outras áreas de conhecimento (escopo, qualidade, etc…). Mas tb, como costumo dizer, é importante ter um cronograma bem construído e saber utilizar bem uma ferramenta (no caso o MS Project). Caso contrário, vc nunca terá uma leitura confiável da doença.

    Grande abraço e parabéns pelo Blog e pelo post,

  3. Paulo Roberto Barbosa Jr at 16:21

    Eli, muito bom artigo. Mas discordo de dois pontos, principalmente:

    A métrica estabelecida é muito ruim. Entre 20% e 80% há 60% de diferença, o que corresponde a mais da metade do valor total possível de se atingir. Algo como o bom e velho 0/25/50/75/100 seria mais aderente à realidade, creio eu. Esta enorme disparidade de percentuais me pareceu um tanto tendenciosa…

    Quanto ao 0% para Aquisições, precisamos lembrar que com o auxílio do Project é possível determinar, por exemplo, quando contratar e quando dispensar equipamentos e fornecedores. Logo, um percentual maior seria mais adequado, ainda que o software não dê de fato grande apoio a esta área.

    De qualquer forma, parabéns pela análise!

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